Liderança

Retenção de talentos: o apagão da construção é um espelho para quem lidera

O Brasil está ficando sem pedreiros. Parece assunto de canteiro de obra, distante de quem gere uma equipe de escritório, de vendas ou de atendimento. Não é. É um dos retratos mais claros que existem hoje sobre retenção de talentos, sucessão e o custo de não formar quem vem depois.

Assisti a uma análise do mercado imobiliário e passei o resto do dia pensando nela. Não pelo tijolo. Pelas pessoas. Porque o que está acontecendo lá vai bater na porta de todo setor, mais cedo ou mais tarde.

Os números que ninguém esperava

A contradição é grande. Tem obra surgindo em toda cidade, o Minha Casa Minha Vida bombando, e ao mesmo tempo os trabalhadores sumindo.

82% das empresas de construção estão com dificuldade de contratar. Desde 2010, o setor perdeu quase 600 mil trabalhadores. E o custo da mão de obra subiu 69% em dez anos, muito acima da inflação do período.

O resultado ganhou até apelido: “leilão de pedreiros”. O encarregado de uma construtora atravessa a rua, vai até o portão da obra do concorrente e faz a proposta na cara: “eu pago 30% a mais para você começar na minha obra amanhã, e ainda dou um bônus pela troca.” Empresas que antes disputavam terreno e cliente agora disputam braço, desesperadamente.

Por que aceitam entrar nesse leilão? Porque obra parada é o maior pesadelo financeiro que existe. Cronograma atrasado por falta de gente vira multa, distrato e lucro derretendo. Então pagam.

Não é preguiça. É proposta.

A explicação preguiçosa é dizer que “essa geração não quer trabalhar”. Só que não é isso.

A construção hoje concorre com o Uber, o iFood, a Shopee, o Mercado Livre. Muita gente que carregava cimento virou motorista ou entregador. Não por preguiça. Por escolha. O aplicativo oferece horário flexível, pagamento rápido e menos desgaste físico. A obra oferece sol, peso e a mesma frase que a sociedade repetiu por décadas: “estude, senão você vira pedreiro.”

Transformamos trabalho manual em sinônimo de fracasso. E, no caminho, quebramos a tradição do pai que ensinava o ofício ao filho. Hoje é comum quem passou a vida na obra dizer “meu filho vai fazer qualquer coisa, menos o que eu faço”.

Guarde essa ideia, porque ela é o centro de tudo: as pessoas não fogem do trabalho. Fogem da proposta e do ambiente. Isso vale para o canteiro e vale para o seu time. É a mesma raiz da falta de engajamento da equipe.

A bomba silenciosa: sucessão

Tem um problema ainda mais grave que a falta de gente nova entrando. Quem ficou está envelhecendo.

A média de idade do trabalhador da construção no Brasil é 41 anos. Em São Paulo, 43. Estamos a uma janela de uma aposentadoria em massa, sem fila de gente para aprender com quem sabe. Quando o mestre de obras, o carpinteiro e o armador que estão há 30 anos no mercado se aposentarem, o conhecimento prático vai embora com eles. Aquele saber que não se aprende na faculdade, só no canteiro.

Agora leia essa frase de novo e troque “mestre de obras” pela pessoa mais experiente do seu time.

Se ela saísse amanhã, o conhecimento dela sairia junto? Se a resposta te deu um frio na barriga, você acabou de encontrar o seu maior risco operacional. E ele não está no balanço.

O que isso ensina para quem lidera

A crise da construção é um espelho. Todo setor vive alguma versão dela.

Quem segura o conhecimento crítico está mais perto da saída do que da entrada. A gente mais nova compara a sua empresa não com o concorrente, mas com todas as outras formas de ganhar a vida que existem hoje. E, na maioria das equipes, ninguém deixou herança de conhecimento, porque ninguém foi ensinado a formar quem vem depois.

Trabalho com desenvolvimento de líderes há mais de dez anos, e a raiz é quase sempre a mesma. Rotatividade alta raramente é problema de salário. É problema de liderança. Um levantamento da Gallup de 2024 confirma o padrão fora do canteiro de obras também: entre os motivos de saída voluntária, apenas 16% citam remuneração, contra 37% ligados a engajamento e cultura e 31% a bem-estar e equilíbrio. Falta de sucessão raramente é falta de gente boa. É falta de alguém que assumiu a responsabilidade de passar adiante o que sabe.

Onde há escassez, há oportunidade, e quem chega cedo bebe água limpa. Para quem lidera, a água limpa não está em pagar 30% a mais para roubar o talento do vizinho. Isso é o leilão, e no leilão todo mundo perde. Está em duas frentes:

  • Construir um lugar do qual as pessoas não querem sair. Ambiente, propósito, reconhecimento e uma liderança que a pessoa respeita valem mais que o bônus da troca.
  • Formar sucessores de propósito. Isso é o oposto de reter tudo para si. É delegar de verdade, documentar o que só está na sua cabeça e deixar alguém aprender com você antes que a saída seja inevitável.

Escassez de gente qualificada não se resolve no RH. Se resolve na liderança. E essa conta chega para todo mundo.

Por onde começar

Não dá para resolver retenção e sucessão num memorando. Mas dá para começar pequeno, esta semana: escolha a pessoa mais difícil de substituir no seu time e pergunte a si mesmo o que aconteceria se ela saísse. Depois, comece a transferir uma parte do que ela sabe para outra pessoa. Uma só.

Liderar não é acumular quem é insubstituível. É fazer com que ninguém precise ser. Se você quer se aprofundar em como sair do operacional e construir um time que funciona sem depender de você, veja o guia de liderança.

A pergunta que fica é simples: se hoje a pessoa mais experiente da sua equipe saísse, o conhecimento dela sairia junto?

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